Correr devagar é tão difícil quanto correr rápido
A corrida se tornou uma metodologia de pesquisa: descobri que desacelerar é necessário para sustentar altas velocidades quando elas forem exigidas — no corpo e na mente.
Há três anos corro acreditando que corria leve. O relógio discordava, mas fingia não ver. Há algumas semanas, sentei diante dos registros dos treinos acumulados desde janeiro. As linhas coloridas sobre as zonas cardíacas apontavam que quase todas as corridas estavam concentradas entre Z3 e Z4, entre 70% e 80% da frequência cardíaca máxima. Um esforço sustentável, mas distante do confortável.
Eu mentia para mim que aquela era uma sensação de corrida leve. Quando Carol, minha professora de corrida e ginástica, dizia “busque o conforto”, eu imaginava estar fazendo exatamente isso. Corria naquele limite entre o forte e o administrável, como se conforto fosse apenas uma questão de insistência.
Ausência de colapso não é conforto. O corpo aprende depressa aquilo que repetimos. O meu está treinado para permanecer em tensão contínua. A respiração sempre um pouco curta, as pernas ligeiramente endurecidas, o coração constantemente quase saindo pela boca. Pra mim, correr era assim. Eu estava mentindo para mim sobre o que era confortável.
Eu acreditava que correr melhor significava sustentar o desconforto para virar o conforto. Em algum momento, o coração se acalmaria sem que fosse necessário diminuir o ritmo. Bastava insistir. Mas até agora isso nunca tinha acontecido.
Durante três anos, corri num limiar: nunca exausta o suficiente para parar, nem confortável o bastante para esquecer o corpo. Foi então que comecei a ler sobre treinos em Z2. O princípio parecia simples: para correr mais rápido era preciso primeiro aprender a correr devagar.
Z2 é uma corrida de baixa intensidade. No meu caso, quase um trote. O tipo de ritmo que machuca um pouco o ego quando nos comparamos com as influencers nas redes. O coração trabalha sem entrar em alarme.
Há três semanas, todos os meus treinos longos passaram a ser feitos nesse trote. E correr devagar é difícil. Bastam alguns segundos de distração para que o ritmo acelere sem que eu perceba. O corpo parece buscar automaticamente a tensão à qual se acostumou. Como alguém que, depois de muitos anos vivendo sob pressão, estranha qualquer calmaria.
Os treinadores dizem que Z2 é um ritmo em que se consegue conversar correndo. Mas eu consigo conversar também em Z3 e Z4. Descobri isso depois de analisar um treino inteiro feito entre músicas cantadas e conversas no meio do percurso. O relógio marcava Z4 do começo ao fim. Meu corpo já tinha aprendido a fingir conforto.
A corrida que me fez perceber que isso não acontecia apenas correndo. Aprendi cedo a viver em Z4.
Era preciso ser sempre 100%. A filha que não dá trabalho. A aluna nota 10. A dedicada às aulas de dança. Sempre a primeira, a mais inteligente, a mais esforçada, a que aguenta mais. Mais e mais e mais... Depois, o mercado de trabalho também me cobrou a “excelência” em todas as minhas entregas. Não houve espaço para erro, para desacelerar e ir devagar.
E a corrida me ensinou no treino de sábado, 16 de maio de 2026, que é preciso saber quais são os dias em que vale dar 100% de si. O que não é todo dia.
Quando é necessário sustentar por muito tempo um coração batendo na boca, exigir mais das pernas, suportar o desconforto?
Ter construído a vida profissional dentro de redações de revistas, jornais e sites marcou no meu subconsciente a impressão constante de atraso – e o meu compromisso com a “excelência”. Como se fosse sempre necessário entregar mais e melhor, no menor tempo possível. Apurar rápido, escrever rápido, publicar. Manter o cérebro funcionando numa espécie de Z3 e Z4 contínuos.
Mas talvez o jornalismo se pareça mais com uma prova de 5 quilômetros. O doutorado, não. O doutorado é uma maratona. E eu estava levando o meu desespero de jornalista para minha vida de pesquisadora.
No ano passado, tentei transformar meu doutorado numa operação eficiente de arquivos. Fazia tudo no computador. PDFs anotados, dezenas de abas abertas, artigos baixados compulsivamente. Também comecei a usar inteligências artificiais para resumir textos, organizar referências, classificar materiais.
Durante algum tempo, tive a impressão de estar avançando muito. Mas, em janeiro, percebi que já não conseguia pensar. As informações pareciam circular ao redor da minha cabeça sem repousar em lugar nenhum. Eu reconhecia os textos, mas não conseguia sentir que havia incorporado algo. Como se o conhecimento permanecesse do lado de fora do corpo. Então, peguei um caderno.
Foi uma decisão quase infantil diante da quantidade de tecnologia que eu vinha usando. Um caderno vermelho, folhas sem pauta, lápis, canetas coloridas. Comecei a copiar frases dos textos lidos à mão. Fazer setas. Resumir ideias. Às vezes desenhar florzinhas na margem.
Era visivelmente menos eficiente. Mais lento. Quase absurdo para alguém acostumada a pesquisar num dia e escrever no outro. Mas alguma coisa mudou.
A escrita manual parecia obrigar o pensamento a acompanhar o tempo do corpo. O cérebro precisa decidir o que merece ocupar espaço na página. Pela primeira vez em muito tempo, tive a sensação de que estava realmente aprendendo. Abandonei a fantasia de organizar perfeitamente todos os arquivos digitais e passei a habitar outro tipo de caos. Um caos dentro de um caderno.
Nos últimos dias, depois de uma reunião com minha orientadora, percebi uma sensação estranha: as informações já não pareciam girar ao redor da minha cabeça. Elas estavam dentro.
Dentro das mãos. Das pernas. Do corpo inteiro. As ideias agora fermentam lentamente em algum lugar da memória.
Aprender, produzir conhecimento é lento. O corpo precisa de tempo para correr confortável. A cabeça também.



Eu acho muito interessante como o movimento nos permite ver coisas que no automático ignoramos. Diante de tanta velocidade, diria que desacelerar é um ato revolucionário.
eu poderia chamar esse texto de "O dia em que minha amiga me ensinou a correr - e a estudar". miga, tinhamu! <3